FERNANDO PESSOA (1888 - 1935)

Cada um dos heterônimos pessoanos tem uma visão de mundo que difere da do ortônimo (Fernando Pessoa), estilo e linguagem próprios, além de concepções bem distintas.
Uma carta escrita pelo autor em 1935, endereçada a Adolfo Casais Monteiro - amigo e editor de Pessoa, tem por objetivo tentar explicar um pouco do que motivou o fenômeno da heteronomia.
HETERÔNIMO:
Do Latim heteros = diferente + ónoma = nome.
É o estudo dos heterônimos, ou seja, o estudo de autores fictícios.
É o estudo dos heterônimos, ou seja, o estudo de autores fictícios.
O termo heteronímia foi criado por Fernando Pessoa
Transcrevemos abaixo o conteúdo completo da carta. Agora, é só se deliciar!
[Carta a Adolfo Casais Monteiro - 13 Jan. 1935]
Caixa Postal 147
Lisboa, 13 de Janeiro de 1935.
Meu prezado Camarada:
Muito agradeço a sua carta, a que vou
responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero
pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o
decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau
papel que o adiamento.
Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que
nunca eu veria «outras razões» em qualquer coisa que escrevesse, discordando, a
meu respeito. Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua
própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica, que se lhe faça, como um
acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos
mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. À parte isso,
conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido
dizê-lo, muito aprovo e louvo. Nunca me propus ser Mestre ou Chefe-Mestre,
porque não sei ensinar, nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei
estrelar ovos. Não se preocupe, pois, em qualquer ocasião, com o que tenha que
dizer a meu respeito. Não procuro caves nos andares nobres.
Concordo absolutamente consigo em que
não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de «Mensagem».
Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à
parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas. E essas
coisas, pela mesma natureza do livro, a «Mensagem» não as inclui.
Comecei por esse livro as minhas
publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não
sei porquê, ter organizado e pronto. Como estava pronto, incitaram-me a que o
publicasse: acedi. Nem o fiz, devo dizer, com os olhos postos no prémio
possível do Secretariado, embora nisso não houvesse pecado intelectual de
maior. O meu livro estava pronto em Setembro, e eu julgava, até, que não
poderia concorrer ao prémio, pois ignorava que o prazo para entrega dos livros,
que primitivamente fora até fim de Julho, fora alargado até ao fim de Outubro.
Como, porém, em fim de Outubro já havia exemplares prontos da «Mensagem»,
fiz entrega dos que o Secretariado exigia. O livro estava exactamente nas
condições (nacionalismo) de concorrer. Concorri.
Quando às vezes pensava na ordem de uma
futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de «Mensagem»
figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos
grande — um livro de umas 350 páginas — , englobando as várias subpersonalidades
de Fernando Pessoa ele mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária,
que ainda não consegui completar.
Concordo consigo, disse, em que não foi
feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com a publicação de «Mensagem».
Mas concordo com os factos que foi a melhor estreia que eu poderia fazer.
Precisamente porque essa faceta — em certo modo secundária — da minha
personalidade não tinha nunca sido suficientemente manifestada nas minhas
colaborações em revistas (excepto no caso do Mar Português parte deste mesmo livro) — precisamente por isso convinha que ela
aparecesse, e que aparecesse agora. Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o
premeditasse (sou incapaz de premeditação prática), com um dos momentos
críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente
nacional. O que fiz por acaso e se completou por conversa, fora exactamente
talhado, com Esquadria e Compasso, pelo Grande Arquitecto.
(Interrompo. Não estou doido nem
bêbado. Estou, porém, escrevendo directamente, tão depressa quanto a máquina mo
permite, e vou-me servindo das expressões que me ocorrem, sem olhar a que
literatura haja nelas. Suponha — e fará bem em supor, porque é verdade — que
estou simplesmente falando consigo).
Respondo agora directamente às suas
três perguntas: (1) plano futuro da publicação das minhas obras, (2) génese dos
meus heterónimos, e (3) ocultismo.
Feita, nas condições que lhe indiquei,
a publicação da «Mensagem» , que é uma manifestação unilateral, tenciono
prosseguir da seguinte maneira. Estou agora completando uma versão inteiramente
remodelada doBanqueiro Anarquista, essa deve estar pronta em breve e
conto, desde que esteja pronta, publicá-la imediatamente. Se assim fizer,
traduzo imediatamente esse escrito para inglês, e vou ver se o posso publicar
em Inglaterra. Tal qual deve ficar, tem probabilidades europeias. (Não tome
esta frase no sentido de Prémio Nobel imanente). Depois — e agora respondo
propriamente à sua pergunta, que se reporta a poesia — tenciono, durante o
verão, reunir o tal grande volume dos poemas pequenos do Fernando Pessoa ele
mesmo, e ver se o consigo publicar em fins do ano em que estamos. Será esse o
volume que o Casais Monteiro espera, e é esse que eu mesmo desejo que se faça.
Esse, então, será as facetas todas, excepto a nacionalista, que «Mensagem»
já manifestou.
Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa
só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada
disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me
for dado o Prêmio Nobel. E contudo — penso-o com tristeza — pus no Caeiro todo
o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha
disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos
toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais
Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos
pelo Fernando Pessoa, impuro e simples!
Creio que respondi à sua primeira
pergunta.
Se fui omisso, diga em quê. Se puder
responder, responderei. Mais planos não tenho, por enquanto. E, sabendo eu o
que são e em que dão os meus planos, é caso para dizer, Graças a Deus!
Passo agora a responder à sua pergunta
sobre a gênese dos meus heterônimos. Vou ver se consigo responder-lhe
completamente.
Começo pela parte psiquiátrica. A origem
dos meus heterônimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se
sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurastênico.
Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenômenos de abulia que a
histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja
como for, a origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica
e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenômenos —
felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não
se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem
explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na
mulher os fenômenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada
poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um
alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume
principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...
Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do
meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos.
Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro — os
que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.
Desde criança tive a tendência para criar
em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca
existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu
que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos).
Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar
mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais
que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos,
porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me
lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de
música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.
Lembro, assim, o que me parece ter sido o
meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um
certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por
quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga,
ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade.
Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre
mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival do
Chevalier de Pas... Coisas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida — ou
talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal
modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.
Esta tendência para criar em torno de mim
um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação.
Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me
um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu
sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como
sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e
cuja figura — cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de
mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca
existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço,
sinto, vejo. Repito: oiço, sinto vejo... E tenho saudades deles.
(Em eu começando a falar — e escrever à
máquina é para mim falar — , custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada
para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários,
que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe
a história da mãe que os deu à luz).
Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode
ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas
coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de
meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra
mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha
nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis).
Ano e meio, ou dois anos depois,
lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta
bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em
qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada
consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 —
acerquei-me de uma cômoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé,
como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa
espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da
minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi
o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto
Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa
a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses
trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio,
também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa.
Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro
a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a
sua inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de
lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do
seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a
si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em
derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo.
Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a
Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei
aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as
amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e
em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve.
Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se
passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e
Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na
matéria.
Quando foi da publicação de «Orpheu»,
foi preciso, à última hora, arranjar qualquer coisa para completar o número de
páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro
de Campos — um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido
Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar
todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois
reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre
Caeiro. Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo
duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio
que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão...
Creio que lhe expliquei a origem dos meus
heterônimos. Se há porém qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais
lúcido — estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito
lúcido — , diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento
verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de
Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está
lidando, meu caro Casais Monteiro!
Mais uns apontamentos nesta matéria... Eu vejo diante de mim, no
espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e
Alvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em
1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e
está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915;
nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão
nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro
de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o
horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por
Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura
média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil
como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas
seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e
um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor,
olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo
vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao
lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma —
só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em
casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó.
Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil
desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um
latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro
de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia
estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem
ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era
padre.
Como escrevo em nome desses três?...
Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria
escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se
concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não
sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas
se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento,
de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de
inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo
a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação
dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o
raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente
igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas
com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do
que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é
escrever a prosa de Reis — ainda inédita — ou de Campos. A simulação é mais
fácil, até porque é mais espontânea, em verso).
Nesta altura estará o Casais Monteiro
pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo
o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito,
porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever
imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever.
Falta responder à sua pergunta quanto
ao ocultismo (escreveu o poeta). Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita
assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela
respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes
desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade,
subtilizando até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este
mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado
outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso,
interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Extrema
do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica)
a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere
dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema
de se Ele é criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de
seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação
espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três
caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do
espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também),
caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o
que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeiro de todos,
porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm.
Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à
sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao
meu poema Eros e Psique, de um trecho
(traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal,
indica simplesmente — o que é facto — que me foi permitido folhear os Rituais
dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de
1881. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se
não devem citar (indicando a ordem) trechos de Rituais que estão em trabalho.
Creio assim, meu querido camarada, ter
respondido, ainda com certas incoerências, às suas perguntas. Se há outras que
deseja fazer, não hesite em fazê-las. Responderei conforme puder e o melhor que
puder. O que poderá suceder, e isso me desculpará desde já, é não responder tão
depressa.
Abraça-o o camarada que muito o estima
e admira.
Fernando Pessoa 1935
Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António
Quadros.) Lisboa: Publ. Europa-América, 1986. - 1ª publ. inc. in Presença , nº 49. Coimbra: Jun. 1937