domingo, 30 de dezembro de 2012

TROVADORISMO - "Entrando no clima..."


O Trovadorismo aconteceu, em Portugal, entre os séculos XII e XIV. Na verdade, foi a primeira forma de expressão literária naquele país que acabara de ser fundado.

Como a Idade Média se caracterizou como um momento histórico em que apenas 2% da população lia - entenda-se aqui Clero e pequena parte da Nobreza - nada mais natural que a forma de literatura se desse por meio da música. Afinal, para cantar não precisamos saber ler nem escrever. Por isso, o nome de Trovadorismo: oriundo da palavra "trovador", que era um tipo de cantor daquela época. Geralmente um fidalgo decaído, que sabia tocar Cítara  e compunha músicas que idealizavam a figura da mulher e, sobretudo, a ideia que se tinha do amor.

Abrimos um parêntese aqui para comentar, com bastante carinho, o significado da palavra "idealização" na Literatura. Ela é bastante corrente para designar a característica principal de obras compostas nas épocas literárias em que predominam textos que não retratam a realidade, e sim, aquilo que o autor imagina que seria o ideal.

No Trovadorismo, por exemplo, o trovador, em suas trovas, colocava a mulher num pedestal e conferia a ela o "status" de Senhora do seu amor e do seu destino. Isso significa que, ao ler uma cantiga trovadoresca, desenvolvemos a falsa impressão de que a mulher era mais valorizada do que na atualidade. Digo falsa impressão porque na realidade a participação da mulher nas questões sociais, políticas e artísticas era nula. Ao homem, apenas e tão somente, cabia o direito de tomar as decisões mais importantes. Isso se dava tanto no âmbito restrito da família como na vida pública em geral.

Por isso, aos nossos alunos da atualidade, talvez seja difícil "visualizar" valores e costumes daquela época.

Uma forma de se fazer uma imersão para que se possa sentir um pouco do ambiente medieval é recorrer a músicas e filmes que retratem aquela época. Vão aqui duas dicas que costumo utilizar em sala de aula:

Filme: O Nome da Rosa - filme de Humberto Eco, além de se tratar de um suspense muito envolvente, leva o espectador para o ambiente dos mosteiros medievais e mostra com maestria alguns esquemas utilizados pela Igreja Católica da época para manter as informações mais valiosas da Antiguidade Clássica, trancadas em gigantescas bibliotecas. Exageros à parte, curiosidades como a produção de cópias de livros, conservação de pergaminhos, o trabalho dos tradutores e copistas, bem como a hierarquia existente no interior da própria instituição prendem a atenção e ao mesmo tempo ensinam sobre aquele importante momento histórico.

Música: "Love Song" - Legião Urbana, Cantiga de Amor de Nuno Fernandes Torneol, do século XIII, cuja primeira estrofe foi musicada pelo grupo Legião Urbana. A letra é bem simples, embora a grafia de algumas palavras cause estranheza. Isso acontece porque o texto foi escrito em galego-português, língua falada na região à época. Abaixo, o texto completo em versão original, retirada do Cancioneiro da Biblioteca Nacional (à esquerda) e em versão atualizada (à direita):
NUNO FERNANDES TORNEOL
Pois naci nunca vi Amor
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
            que me mostr'aquel matador,
            ou que m'ampare del melhor.

Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram med'em que me tem:
que me mostr'aquel matador,
            ou que m'ampare del melhor.

Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
que me mostr'aquel matador,
            ou que m'ampare del melhor.

E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
que me mostr'aquel matador,
                      ou que m'ampare del melhor.
           

Nenhum comentário:

Postar um comentário